quarta-feira, 21 de abril de 2010

O CANTO DA CORUJA

Augusto dos Anjos

A coruja cantara-lhe na porta

Sinistramente a noite inteira! Indício

Mais certo não havia! - Era o suplício!...

Daí a pouco, ela seria morta.

Saiu. O Sol ardia. A estrada torta

Lembrava a antiga ponte de Sublício...

Havia pelo chão um desperdício

De folhas que a áurea xantofila corta.

Nisto, ouve o canto aziago da coruja!

- Quer fugir, e não vê por onde fuja.

Implora a Deus como a um fetiche vago...

- Se ao menos voasse! - E o horror começa! Rasga

As vestes; uma convulsão a engasga

E morre ouvindo o mesmo canto aziago!

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Versos Íntimos, Augusto dos Anjos

Ode ao burgês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!

O homem-curva! o homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!

que vivem dentro de muros sem pulos;

e gemem sangues de alguns mil-réis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o èxtase fará sempre Sol!

Trecho de Ode ao burguês, Mário de Andrade

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Presente

O tempo que havia passado não importava mais. Ela sabia apenas que o sentimento só se consolidava...Recordações e lembranças preenchiam o pensamento. Só não haviam perspectivas - aprendeu certa vez que não eram boas de se alimentar. Tudo aquilo só aumentava a sensação de angustia de longínqua felicidade. Saudades daquela alegria que era tanta que chegava a sufocar. Mas naquele momento tudo não passava de lembranças.
Resolveu esquecer!
Sem a presença do passado e a sombra do futuro tudo que lhe restava eram as brancas páginas do Presente. Precisavam ser escritas com urgência, disso ela sabia, porem como faze-lo era o problema. Sem citações, alusões, utopias, apenas o real. O Presente é mais sufocante em vazio que o passado em felicidade. Talvez só era menos amedrontador que o futuro em interrogações.
Resolveu esquecer de lembrar!
Acordou, pois o all-star vermelho, foi ver o por-do-sol. Então, nesse instante, o Presente começou a fazer parto do livro da sua vida. Sem pedir licença as letras douradas do Agora preenchiam o vazio.

sábado, 3 de abril de 2010

Floresça!

A Dona Inspiração anda sumida
Não quer conversa comigo
Não sei o que lhe fiz
Fiquei menos reflexiva, é verdade
Mais acordada que sonhando
Porém continuo mergulhada em hipérboles
E mesmo assim ela não vem
Quando triste bate a minha porta
Ficamos tristes eu e ela
O tempo passa e quando a felicidade volta a sorrir
A Inspiração arruma as suas malas e parte
Não entendo o porquê dessa limitação
Poderia muito bem me ser útil sempre
Na alegria e na tristeza
Mas ela prefere o atrito ao contrato
E mais uma vez vai, parte
Está na hora da Dona evoluir
Aprender a lhe dar com outros sentimentos
Deixar de alimentar-se só com tristezas
Largar essa sub-vida quase masoquista
Isso não está certo
Floresça!!!
Eis que um dia
Ela me responde:
-Flores-serei