sábado, 1 de maio de 2010

Frutos da sociedade

Sempre alimentei uma paixão pela cidade de São Salvador, pelo país pelo mundo por inteiro. Ontem, assim como todas as vezes que passo pelo centro da Salvador, estava reparando na beleza da cidade. Como aquele sol se escondendo por de trás da imensidão azul sempre me deixava pensativa, vulnerável as emoções. Senti uma alegria imensa que logo depois foi sendo substituída por uma tristeza de peso igual.
É uma beleza egoísta. Lá do cais do MAM tão perto de tudo aquilo tão lindo está a Gamboa. Fruto de uma sociedade injusta. E ver tudo aquilo dói. Dói mais ainda ver que muita gente não está nem ligando, fingi que não vê.
Voltando ao ônibus minhas reflexões só fizerem se confirmar. Uma mulher entra pedindo ajuda para tratamento de uma doença... E todos ali de caras viradas pra janela pra não ver tudo aquilo. A verdade incomoda tanto que é melhor fazer-se de cego surdo e mudo. Pra que ver que ha tanta desigualdade se é mais cômodo ficar pensando se a Helena vai ficar com o Zé Mayer no final da novela? E ai ninguém liga porque sabe de sua parcela de culpa para tudo isso. Fingem que não sabem!
Se ja estava reflexiva depois de tudo aquilo fiquei mais ainda. Santa hipocrisia humana! Meu singelo desprezo para todos eles.E no fundo sei que suas concepções também são fruto da sociedade...

Capitães da areia

"[...]Certa hora Nhozinho França manda que o Sem-Pernas vá substituir Volta Seca na venda de bilhetes. E manda que Volta Seca vá andar no carrossel. E o menino toma o cavalo que serviu a Lampião. E enquanto dura a corrida, vai pulando como se cavalgasse um verdadeiro cavalo. E faz movimentos com o dedo, como se atirasse nos que vão na sua frente, e na sua imaginação os vê cair banhados em sangue, sob os tiros da sua repetição. E o cavalo corre e cada vez com mais, e ele mata a todos,porque são todos soldados ou fazendeiros ricos. Depois possui nos bancos a todas as mulheres, saqueia vilas, cidades, trens de ferro, montado no seu cavalo, armado com seu rifle.

Depois vai o Sem-Pernas. Vai calado, uma estranha comoção o possui. Vai como um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para a morte. Vai pálido e coxenia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da pianola Só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza. Já não se vê os soldados que o surraram, o homem de colete que ria. Volta Seca os matou na sua corrida. O Sem-Pernas vai teso no seu cavalo. É como se corresse sobre o mar para as estrelas, na mais maravilhosa viagem do mundo. Uma viagem como o Professor nunca leu nem inventou. Seu coração bate tanto, tanto, que ele o aperta com a mão."

Trecho de Capitães da areia, Jorge Amado