Todo dia quando vou trabalhar passo pela frente daquele parque e vejo o mesmo palhaço se apresentando para as crianças. Ele tem um ar de alegria falsa em seu rosto. Pobres crianças! Só elas para acreditarem naquelas palhaças sem fundamento.
Quando volto para casa vejo ele tirando a maquiagem em um parque já fechado sem crianças ingênuas o observando. Estou agora, como sempre, me perguntando como pode uma pessoa fingir assim a vida toda ser uma coisa que não é.
Estou com vontade de ir lá e perguntar a ele. Não sei se tenho coragem... Tenho, tenho sim! Anos a anos que vejo esse palhaço dando um de Amelie Poulain, destruindo tanta alegria para as criancinhas (que ainda que ingênuas se divertem muito) e sento tão visivelmente amargurado.
O vento está batendo frio no meu rosto enquanto corro para as grades trancadas do parque e avisto o palhaço a poucos metros de mim.
-Ei palhaço!?
- Moça o parque já fechou.
-Eu sei!Preciso falar com você!
-Comigo?Olha moça tenho nada para falar com a senhora não.
Falei mais rápido do que pensei naquele instante.
-Só me diz como você consegue dormir tranquilho todas as noites quando sabe que toda aquele felicidade que esbanja na frente das crianças se esvai no mesmo instante que elas viram de costas e a infelicidade toma conta de seu rosto?
Não sei a quanto tempo estou aqui olhando fixamente para os olhos penetrantes do palhaço sem alegria.